É possível conseguir um crédito habitação a 100%?

Sim, mas o financiamento a 100% é uma exceção e não a regra no crédito habitação em Portugal. Em 2026, existem três caminhos que podem permitir chegar a 100% do valor relevante da operação: a garantia pública para jovens elegíveis, a compra de determinados imóveis detidos por instituições financeiras e operações de locação financeira imobiliária. Cada via tem regras diferentes.

No crédito habitação tradicional para aquisição de habitação própria e permanente, a recomendação macroprudencial do Banco de Portugal estabelece, em regra, um limite de 90% para o rácio LTV. Esse rácio compara o montante do crédito com o menor entre o preço de aquisição e o valor da avaliação.

SituaçãoLTV de referência100% é possível?
Habitação própria e permanente, regime geralAté 90%Em regra, não
Outras finalidadesAté 80%Em regra, não
Garantia pública jovem elegívelCrédito entre 85% e 100% do valor de transaçãoSim, sujeito a aprovação
Imóvel detido pela própria instituiçãoAté 100%Pode ser possível
Locação financeira imobiliáriaAté 100%Pode ser possível, mas não é um crédito hipotecário tradicional

Se tens até 35 anos e procuras especificamente a garantia do Estado, consulta também a nossa guia sobre crédito habitação jovem com financiamento até 100%. Nesta página explicamos a visão mais ampla: todas as vias e o que muda entre elas.

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Porque é que o banco normalmente não financia 100%?

O limite não nasce apenas da política comercial de cada banco. Desde 2018, o Banco de Portugal aplica uma recomendação macroprudencial aos novos créditos. Para habitação própria e permanente, o montante do crédito não deve, em regra, ultrapassar 90% do valor do imóvel, sendo esse valor o menor entre o preço de compra e a avaliação.

Isto significa que uma casa anunciada e comprada por 250.000 € não dá automaticamente acesso a 225.000 € de crédito. Se a avaliação for de 240.000 €, o valor de referência passa a ser 240.000 € e 90% corresponde a 216.000 €.

Exemplo orientativo: preço de compra de 250.000 €, avaliação de 240.000 € e crédito em regime geral. Aplicando 90% ao valor mais baixo, o crédito de referência seria 216.000 €. A diferença até ao preço de compra seria 34.000 €, antes de impostos e outros custos. A decisão concreta continua a depender do banco e da solvabilidade.

Além do LTV, o banco analisa rendimentos, dívidas existentes, estabilidade profissional, histórico de pagamentos, prazo e capacidade para suportar a prestação. Uma pré-aprovação do crédito habitação pode ajudar a perceber o orçamento antes de assumir compromissos sobre um imóvel.

Jovens a planear a compra de casa com financiamento elevado

As 3 vias principais para tentar financiar 100% da casa

“Crédito a 100%” pode significar coisas diferentes. Convém distinguir o mecanismo antes de comparar propostas.

ViaPara quem pode fazer sentidoPrincipal limite
Garantia públicaJovens até 35 anos que cumprem todos os requisitosPrimeira HPP, valor até 450.000 €, requisitos pessoais e prazo legal
Imóvel do bancoCompradores interessados em imóveis detidos pela própria instituição financiadoraOferta limitada e aprovação não garantida
Leasing imobiliárioCasos em que a estrutura de locação é adequadaA propriedade pertence à locadora durante o contrato e a lógica é diferente do crédito habitação

Não existe uma regra que obrigue uma instituição a conceder 100% por uma destas vias. Os limites prudenciais indicam até onde a operação pode ir; a aprovação continua a ser uma decisão de risco da entidade.

1. Garantia pública para jovens: quando pode chegar aos 100%

O regime de garantia pública permite que jovens elegíveis contratem crédito entre 85% e 100% do valor de transação. O Estado presta uma garantia que pode cobrir a parte do capital acima de 85%, até ao limite legal de 15% do valor da transação, durante um máximo de 10 anos.

Entre os requisitos principais estão: ter entre 18 e 35 anos, domicílio fiscal em Portugal, não ser proprietário de imóvel habitacional, não ter utilizado anteriormente a garantia, cumprir o limite de rendimentos aplicável, ter situação fiscal e contributiva regularizada e comprar a primeira habitação própria e permanente. O valor de transação do imóvel não pode exceder 450.000 € e, no regime atualmente em vigor, o contrato tem de ser celebrado até 31 de dezembro de 2026.

Todos os compradores têm de ser mutuários e cumprir os requisitos. E mesmo cumprindo tudo, a garantia não transforma o pedido numa aprovação automática: o banco continua obrigado a avaliar a capacidade financeira atual e futura.

Há ainda uma diferença importante entre garantia de 15% e “Estado paga 15% da casa”. Não é isso que acontece. A compra continua a ser financiada pela instituição e a dívida continua a pertencer ao cliente. Se o Estado tiver de pagar ao banco ao abrigo da fiança, isso não apaga automaticamente a responsabilidade do devedor.

Até 100% não significa aprovação garantidaCompara o montante, a prestação e o custo total com base no teu perfil real.
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2. Comprar um imóvel do banco pode permitir 100%?

A recomendação macroprudencial admite um LTV até 100% na aquisição de imóveis detidos pela própria instituição financeira. É uma das exceções históricas ao limite de 90% aplicado à habitação própria e permanente.

Mas “pode financiar 100%” não significa que qualquer imóvel de banco venha automaticamente com essa condição. É necessário que o imóvel seja efetivamente detido pela instituição relevante, que exista uma proposta comercial compatível e que o comprador passe a análise de solvabilidade.

Também aqui a avaliação importa. O LTV é uma relação entre o crédito e o valor de referência do imóvel. Se o preço pedido e a avaliação não coincidirem, confirma na FINE e na proposta qual é a base considerada e que capitais próprios continuam necessários.

Antes de escolher uma casa apenas pela percentagem de financiamento, compara preço, localização, estado do imóvel, custos de obras, taxa de juro, TAEG, seguros e flexibilidade contratual. Um financiamento maior pode reduzir a entrada, mas aumenta o capital sobre o qual pagas juros.

3. E a locação financeira imobiliária?

A recomendação do Banco de Portugal também contempla LTV até 100% nos contratos de locação financeira imobiliária. Contudo, esta solução não deve ser apresentada como sinónimo de crédito habitação.

No leasing imobiliário, a propriedade do imóvel permanece na entidade locadora durante o contrato e o cliente paga rendas. No final, pode existir uma opção de compra mediante as condições acordadas, incluindo um valor residual. A estrutura jurídica, fiscal e contratual é diferente de um empréstimo hipotecário tradicional.

Por isso, se a única razão para considerar leasing for “não tenho entrada”, compara cuidadosamente o custo total, o valor residual, os seguros, as comissões, as condições de saída e o momento em que a propriedade passa para o teu nome.

Habitação usada numa avaliação para crédito a 100%

A avaliação pode impedir um financiamento a 100% do preço

Este é um dos pontos mais importantes — e um dos mais mal entendidos. Tanto na regra geral de LTV como na garantia pública, o valor relevante não é necessariamente o preço que combinaste com o vendedor. Conta o menor entre o preço de aquisição e o valor da avaliação.

Imagina uma compra por 250.000 € com avaliação bancária de 235.000 €. Mesmo num cenário em que seja possível financiar 100% do valor relevante, os 100% correspondem a 235.000 €, não necessariamente aos 250.000 € acordados. Fica uma diferença de 15.000 € a suportar pelo comprador, além dos custos aplicáveis.

ExemploPreçoAvaliaçãoValor de referênciaMontante teórico
Regime geral HPP a 90%250.000 €235.000 €235.000 €211.500 €
Operação elegível até 100%250.000 €235.000 €235.000 €235.000 €

Os valores acima são exemplos matemáticos, não propostas de crédito. A instituição pode financiar menos, aplicar critérios próprios e exigir outras condições.

Crédito a 100% significa comprar casa sem poupanças?

Não. “100% financiamento” costuma referir-se ao valor do imóvel considerado para a operação, não a todos os custos da compra. Mesmo sem entrada sobre esse valor, podes precisar de dinheiro para impostos, escritura, registos, avaliação, comissões, seguros, mudança, obras ou mobiliário.

Os jovens que cumprem os requisitos podem beneficiar de medidas fiscais específicas, mas essas medidas têm regras próprias e não devem ser confundidas com a garantia pública. Explicamos essa combinação na guia de financiamento jovem até 100%.

Também é prudente não esgotar toda a liquidez na escritura. Uma reserva de emergência ajuda a absorver despesas imprevistas e reduz o risco de recorrer a crédito ao consumo logo depois da compra.

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Como aumentar a viabilidade de um crédito com financiamento elevado

Quanto maior for a percentagem financiada, maior tende a ser a exposição do banco e do comprador. Não existe uma fórmula que garanta aprovação, mas há fatores que ajudam a apresentar uma operação mais sólida.

  • Reduzir outros créditos: cartões, crédito automóvel e crédito pessoal aumentam os encargos mensais.
  • Manter rendimentos estáveis e documentáveis: o banco avalia capacidade presente e futura.
  • Evitar incidentes de pagamento: o histórico financeiro pode pesar na decisão.
  • Escolher um imóvel coerente com o orçamento: uma avaliação abaixo do preço pode aumentar muito a necessidade de capitais próprios.
  • Comparar várias propostas: LTV, spread, TAN, TAEG, seguros e produtos associados podem variar.
  • Pedir pré-aprovação antes do CPCV: ajuda a perceber limites, sem confundir pré-aprovação com aprovação definitiva.
  • Reservar poupança para custos e imprevistos: mesmo num cenário de 100% do valor de referência.

Para comparar o preço do dinheiro entre propostas, consulta a nossa explicação sobre taxa de juro no crédito habitação. E se estás no início, vê o crédito habitação passo a passo.

Não compares apenas a percentagem financiadaUm crédito de 100% pode ter uma prestação e um custo total superiores a uma operação com entrada.
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Na prática, procurar 100% de financiamento exige preparar o processo com mais cuidado do que uma operação com entrada significativa. A instituição não olha apenas para a percentagem financiada: analisa a estabilidade dos rendimentos, outros créditos, despesas permanentes, historial financeiro, valor e características do imóvel e a margem que sobra no orçamento depois da prestação. Quanto menor for a folga financeira do agregado, mais vulnerável fica o processo a alterações de taxa, despesas inesperadas ou diferenças entre o preço e a avaliação.

Por isso, faz sentido preparar dois cenários antes de procurar casa. No primeiro, calcula o projeto com a percentagem máxima de financiamento que pretendes obter. No segundo, simula o que aconteceria se tivesses de colocar algum capital próprio por causa de uma avaliação inferior, de uma decisão de risco mais conservadora do banco ou de custos que não sejam financiados. Se o segundo cenário tornar a compra inviável, o orçamento de aquisição pode estar demasiado próximo do limite.

  • confirma antecipadamente quanto dinheiro tens disponível além do preço da casa;
  • evita assumir que uma avaliação será igual ou superior ao preço acordado;
  • compara TAEG, MTIC, seguros e produtos associados, não apenas a percentagem financiada;
  • mantém uma reserva depois da escritura, sobretudo quando a operação usa pouca ou nenhuma entrada;
  • não assines compromissos sem perceber o que acontece se o financiamento final for inferior ao esperado.

Um financiamento elevado pode ser útil para preservar poupança, mas também aumenta a importância de uma prestação sustentável. O objetivo não deve ser obter 100% a qualquer custo, e sim encontrar uma estrutura de financiamento que continue suportável se o orçamento familiar mudar. Uma aprovação muito próxima do limite máximo de capacidade não deixa a mesma margem de segurança que uma operação em que a prestação é confortável mesmo perante despesas imprevistas.

7 erros a evitar quando procuras financiamento a 100%

  1. Assumir que 100% significa zero euros de poupança.
  2. Confundir a garantia pública com aprovação automática.
  3. Ignorar a avaliação e negociar o CPCV como se o banco fosse financiar sempre o preço.
  4. Escolher um imóvel do banco apenas pelo financiamento, sem comparar preço e estado do imóvel.
  5. Usar crédito pessoal para criar a entrada sem perceber o impacto na taxa de esforço e na análise de risco.
  6. Comparar apenas a prestação e não a TAEG, MTIC, seguros e produtos associados.
  7. Assinar um CPCV sem proteção adequada para o risco de o financiamento não ser aprovado.

Uma operação com menor entrada pode ser útil para preservar liquidez, mas também significa financiar mais capital. O Banco de Portugal mostra, nos seus próprios exemplos da garantia pública, que pedir um montante superior aumenta a prestação e os juros totais quando as restantes condições são iguais.

Perguntas frequentes

É possível conseguir crédito habitação a 100% em Portugal?

Sim, mas apenas em situações específicas. Em 2026, as principais vias são a garantia pública para jovens elegíveis, a aquisição de imóveis detidos por instituições financeiras e determinadas operações de locação financeira imobiliária. Em qualquer caso, a instituição avalia a solvabilidade e pode recusar o crédito.

A garantia pública obriga o banco a financiar 100%?

Não. O regime permite créditos entre 85% e 100% do valor de transação, mas o banco continua a avaliar a capacidade financeira e não é obrigado a conceder a percentagem máxima.

Se a avaliação for inferior ao preço de compra, o banco financia o preço todo?

Não necessariamente. O valor relevante considera o menor entre o preço de aquisição e a avaliação. Se a avaliação ficar abaixo do preço, pode existir uma diferença a suportar com capitais próprios.

Comprar um imóvel do banco garante financiamento a 100%?

Não. A recomendação macroprudencial admite LTV até 100% para imóveis detidos pela própria instituição, mas a concessão depende da política comercial, do imóvel e da avaliação de solvabilidade.

Financiamento a 100% significa comprar casa sem poupanças?

Não. Podem existir impostos, escritura, registos, avaliação, seguros e outros custos. Uma avaliação inferior ao preço também pode criar uma diferença a suportar pelo comprador.

O que aumenta a probabilidade de aprovação?

Rendimentos regulares, encargos controlados, histórico financeiro estável, documentação completa e um imóvel compatível com o orçamento ajudam. Ainda assim, a decisão final é sempre da instituição de crédito.

Fontes e referências
Fontes oficiais utilizadas para verificar os limites de financiamento, a garantia pública e as regras de avaliação descritas neste guia.

Mais guias sobre crédito habitação

Quando falares com diferentes instituições, pergunta explicitamente qual é a base usada para calcular a percentagem de financiamento e que documentos serão necessários para confirmar a operação. A mesma expressão “100%” pode ser interpretada pelo cliente como 100% do preço, quando a análise bancária depende também da avaliação e das regras aplicáveis ao produto. Ter essa resposta por escrito evita construir o CPCV ou a poupança necessária com uma premissa errada.

Também vale a pena testar um cenário em que a compra é adiada para reforçar capitais próprios. Mesmo que exista uma via para financiar 100%, alguns meses adicionais de poupança podem permitir baixar o montante pedido, absorver uma avaliação menos favorável ou escolher um imóvel sem depender da aprovação máxima. Comparar os dois cenários — comprar agora com financiamento muito elevado ou comprar mais tarde com maior entrada — ajuda a perceber o custo da pressa e o valor da flexibilidade.